quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Privação do sono

Como já é do conhecimento público, eu trabalho num sítio estranho, repleto de gente estranha com comportamentos deveras estranhos. Dado eu ser uma pessoa mental e fisicamente sã, considero-me um erro de recrutamento naquele cenário. Descrevo, então, a minha rotina quando faço noite. Estou enclausurada num gabinete do tamanho de uma gaiola, onde, quando tenho sorte, as pessoas batem à porta antes de entrar. Essas pessoas vão aparecendo e eu confirmo se o seu nome consta da minha lista de trabalho, como se de um bordel ultra-moderno com worklist informática dos clientes se tratasse. Caso o nome conste da lista, mando a pessoa despir-se da cintura para cima, deitar-se sobre as suas costas, permanecer imóvel e então entro em acção. Não mais de dez minutos a cada um e siga para o próximo. Mas todo este processo é verdadeiramente complexo desde os primeiros minutos para alguns. Uns não sabem como se chamam, outros perguntam depois de eu perguntar o nome "O meu?" (não, o meu, que eu sofro de amnésia grave... parvos.), outros dizem coisas imperceptíveis ao ouvido humano, outros há que até nem falam e eu que adivinhe e ainda há os que têm nomes fruto de momentos divinos de inspiração de mães que certamente se drogavam forte e feio. E é uma destas situações que venho relatar hoje.

Jovem, que minutos antes esteve no gabinete a acompanhar o avô, bate à porta:

- Lindo Volver.
- Desculpe? (Tás a gozar???)
- Lindo Volver.
- Não consta da lista. (Que merda de nome.)
- Mas isto é seu.
- Meu? Oh meu senhor, eu estou a trabalhar. (Tarado!)
- Tome lá! 
- Já lhe disse que estou a trabalhar. (Taradão do caralho, se me mostras a pila, grito! Olha que eu hoje venho alterada!)
- Disseram-me que era seu...

Fechei a porta sem dizer mais nada, sentei-me na cadeira e resmunguei com a minha colega "Até às 4 da manhã temos de levar com gente maluca? Credo! Não me pagam para isto!"

A privação do sono provoca alucinações, dizem os peritos. Juro, pela minha saúde, que foi isto que aconteceu. Mas a minha colega de trabalho anda a deixar-me preocupada. Ela jura que o rapaz disse "vim devolver" e que tinha uma peça de um dos nossos aparelhos na mão que, supostamente, foi agarrada à cadeira de rodas do avô. Tal não é a gravidade da situação clínica da miúda, que até se levantou e foi supostamente atrás do jovem, trazendo depois uma peça igualzinha às nossas. Deve tê-la levado no bolso só para dizer que tinha razão e que eu ando a ouvir mal o que me dizem. Outra maluca dos cornos, é o que é.

9 comentários:

  1. És grande, miúda, para sobreviver a tudo isso.

    Tenho dito.

    R.

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  2. Ou seja, nesse local estranho, tu és a única que não o és, tá bem de ver :P

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  3. Amiguinhos, então não se vê logo que eu sou a única cabeça com neurónios funcionantes desta história?

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  4. Epáhhhh este post fez-me lembrar uma situação que aconteceu com a minha pessoa e que dá para encher chouriços lá nas minhas bandas!!!
    Mt bom!!
    Um dia destes escrevo ;)

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  5. Tens de tomar as vitaminas ;) eheheh

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