sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um post cheio de cultura

Há dias vi o meu sobrinho a tomar banho. Não, não tenho nenhum tipo de patologia mental a roçar a pedofilia, mas disseram-me que as tias devem assistir a este tipo de evento e fingir que estão a achar muita graça. Ele tem daqueles livros impermeáveis com bonecos para brincar na água. Isso já achei bonito, introduzir-lhes a cultura literária logo desde pequenos. Eu tinha 13 anos quando a minha mãe me pôs a ler "Os filhos da droga". Hoje percebo o objectivo dela: chocar-me com aquele mundo logo desde cedo, para que eu nunca fosse por esse caminho. Mas lembro-me que, na altura, a parte da droga passou-me ao lado e o que me chocou foi a parte da prostituição e imaginar a miúda a meter pilas na boca para pagar o vício. É engraçado como as boas intenções da minha mãe saíram todas ao lado. A verdade, é que se ela me tivesse posto a ler livros sobre hospitais, tinha feito melhor figura e eu hoje podia ser uma esteticista de sucesso e não ter que trabalhar aos domingos e feriados. Ontem foi um desses feriados. Com sol e calor, só para agravar o meu sofrimento. E, claro está, quem se lembra de ficar doente neste cenário, também não deve muito à sanidade mental. Como o casal idoso que tive o gosto de conhecer pelas 18 horas. Vinham eles das celebrações do dia da Liberdade. Vinha ela com uma ferida aberta na cabeça. Vinha ele nervoso porque o Benfica estava quase a começar. "A minha mulher parte coisas. Fica nervosa e depois parte coisas. É muito doente dos nervos, ela. Eu não sou assim, eu só fico nervoso se partir coisas de valor. Ela fica nervosa e parte tudo. Eu só parto porque ela é nervosa e eu fico nervoso". Eu não consigo precisar exactamente quanto tempo ele esteve nisto, até porque estava calor lá fora e eu estava ali contrariada, mas creio que ele lhe partiu a cabeça. Acredito, no entanto, que há ali um amor daqueles a sério, verdadeiro e à antiga. Ainda assim, eu não sou uma pessoa sensível para descodificar e entender as relações amorosas. Juro que tento, mas não tenho o dom. Se calhar, porque a minha mãe nunca me deu um romance para ler. Os poucos que tentei ler, foram durante a escola secundária e acho que nunca acabei nenhum. Todas aquelas histórias davam-me suores, diarreia e pesadelos. Ainda hoje tenho vontade de fazer xixi nas calças quando penso no Eça de Queiroz. Acho que este trauma explica muita coisa na minha vida. Mas, continuando, disse então ao velhote que tudo ia correr bem, que mais um bocadinho iam para casa, e para ele se acalmar porque estava visto que mais dia menos dia, já não ia haver mais nada para partir lá em casa... A velha lamentou chorosa o fatídico destino do serviço Vista Alegre, mas eu estava mesmo a falar deles os dois. Acho que o velho percebeu o que me ia no pensamento, fez um ar desconfiado e perguntou se eu era funcionária do hospital. Eu disse que não, que só ando de bata branca porque gostava que fosse Carnaval o ano inteiro. A minha colega, que ajudava a velha a levantar-se, olhou para mim em estado de choque. A velha também. Ele riu-se, abraçou-me e disse até amanhã. Saíram. A porta fechou-se. Fez-se um silêncio estranho. Ouvi a minha colega dizer que é encantadora a minha facilidade de comunicar com doentes psiquiátricos. Digo eu que é assustadora a afinidade que eles têm comigo. Vou deixar de ler Boris Vian e passar a ler Danielle Steel. No banho. Parece-me uma boa iniciação.

28 comentários:

  1. Grande demais, mas mesmo assim teve piada! Coitada é da velhota... :p

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    1. Ahah acreditas que nem tinha reparado no tamanho do rolo de papel higiénico que acabei de criar?

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    2. Devo andar com algum descontrolo hormonal...

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  2. Resumindo, quando ouves falar em cultura puxas da seringa? De Boris Vian para Danielle Steel?
    Porque é que será que eu não acredito? :)

    Boa noite Snail :)

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    1. Quero aprender a entender o amor. (tão bonito!)

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    2. Digo-te, tive que limpar uma lágrima do canto do olho. Mesmo, mesmo a sério. Já 'tou a ver o próximo passo na carreira: Roadie do Mikael! ;)

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  3. Adoro doentes psiquiátricos....fazem-me sentir normal. Acho que escolhi o caminho de carreira errado e devia ter-me dedicado aos malucos...

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  4. Foda-se... vou tomar um café e depois volto a ler isto... passou-se!

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    1. Não estou a falar do conteúdo, mas da quantidade de texto... entenda-se!!

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    2. Se estivesses a falar do conteúdo é porque já tinhas lido. Vai e volta. Para me explicares essa tua coisa de nunca estares satisfeito... És como uma gaja. Intrigas-me.

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    3. Foda-se... foda-se!

      ...agora li o conteúdo... tu precisas (não de sexo) mas de férias!

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    4. Como assim não preciso de sexo??? Claro que preciso! Precisamos todos! Muito sexo! Tá parvo, o miúdo! :p

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    5. Falando em sexo, ainda não me disseste (falha grave) o que achaste do meu post de hoje de manhã! ?

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    6. Porque eu não tinha reparado que fizeste 50 posts hj... já lá vou.

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    7. A sério?

      Estás a queixar-te com o tamanho da minha... "escrita"!?

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  5. E não está assim tão grande! Já vi coisas maiores. Bando de maricas!

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    1. Gosto de mamas pequenas, textos pequenos... mulheres...

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    2. Já fiz um post com esse título: "Ser estranho, eu"

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  6. Podes oferecer uns livros de banho aos teus doentes...Assim já não partem nada e pode ser que aprendam qqr coisa!

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    1. Achas?? E depois? O que me alegrava os dias??

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  7. Pois eu cá acho que no teu caso "size matters": os teus textos grandes são bem melhores que os pequininos :) Não que estes sejam maus, que não são, mas os grandes levam-me às lágrimas. :)

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    1. Pronto... Nunca se consegue agradar a toda a gente, né? :)

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