segunda-feira, 13 de maio de 2013

Purificação da alma

Já tinha lido vários folhetos informativos dos Jeovás sobre o chamamento. Normalmente não lhes dou muita conversa, mas fico sempre com os livrinhos, não vá a preta esquecer-se de renovar a biblioteca da casa de banho. E foi precisamente no jantar de aniversário da preta que senti que tinha de fazer algo diferente. O mega-homem novo que a freak trouxe para nos mostrar era de facto intrigante. Mais velho, com uma forma envolvente de falar, embebedou-nos a todos e deixou-nos falar entusiasmados sobre o nosso assunto favorito. Ria-se, o malandro. Levou-nos à exaustão e começou então a dissertar sobre a juventude de hoje e sobre o conceito, da sua autoria diz ele, da prostituição intelectual. Não me lembro da explicação que deu sobre a sua teoria. Na minha cabeça as coisas fluíram sozinhas. Estava na hora. Depois de caminhar a estrada da minha putificação, chegara o tempo de purificar a minha alma. Mas depois lembrei-me que Jesus tinha uma amiga que fez isso e ainda por cima a tipa vestia-se mal e eu não gosto desse tipo de misturas. Reflecti um pouco e lembrei-me desta: o que eu podia mesmo fazer era ser um Siddhartha dos tempos modernos. Então, mudei de planos, larguei tudo e fui para o Caribe. Chegada lá, deixei logo de parte o gin e o vinho e entreguei-me de coração aberto ao rum, com celebrações matinais e durante o resto do dia também. Falei com estrelas do mar, com palmeiras, com pretos de camisas às flores, e até com uma sanita depois de um banho de piscina em grupo durante a madrugada, todos em cuecas e debaixo de uma abençoada chuva tropical, do qual a minha digestão não gostou muito. Durante essa conversa mística com a sanita, reparei no seu pequeno ralo. Bem mais pequeno que os ralos das sanitas lusas. A da minha casa nunca entupiu com vomitado. Aquela entupiu. Embriagada, porém piedosa, salvei-a da asfixia antes de me deitar. Mas, no dia seguinte voltei a entupi-la, desta vez com material fecalóide. As lagostas eram mesmo grandes, pensei eu. Quatro visitas diárias ao buffet provoca hiperplasia do cagalhão, teorizei eu. Quem é bom para comer, também é bom para cagar e, se tiver tempo, para trabalhar também, lembrei-me eu. Respirei fundo, fiquei orgulhosa por não ter aumentado a intensidade do cheiro na mesma escala do aumento do tamanho do bicho e voltei a desentupi-la. E desentupi a do bar da praia. E desentupi a da discoteca. Fazia-o e olhava para mim, como se o meu espírito tivesse saído do meu corpo, ali empenhada em descarregar dezenas de vezes autoclismos até os meus detritos seguirem caminho. Cada vez mais morena, cada vez mais barriguda e com um futuro promissor no mundo da canalização caribenha. Mas depois acabei por perceber que o meu espírito estava sempre no mesmo sítio, que havia era muitos espelhos nas casas de banho e que eu é que estava sempre bêbeda e cada vez mais gorda. Lembrei-me com saudade de vomitar com estilo, magra e bonita, entre a porta do taxi e a porta de casa. Lembrei-me com nostalgia das vezes em que já íamos a sair de casa e de dizer suavemente, com uma falsa timidez, que tinha de ir a casa num instante só para fazer uma coisa, subir as escadas a suar e cagar como uma rainha um cagalhãozinho de princesa. Outrora, a pequena diva da minha rua. Agora, um pequeno buda das sanitas. Saber quando desistir também é uma virtude. Decidi voltar.

27 comentários:

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    1. :) E se soubesses o bem que o meu bronze se parece...

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  2. Já li três vezes. Ainda me consigo rir... :)

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    1. Eu também me ria, mas tenho medo de sufocar na minha gordura abdominal.

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  3. Olha, este teu regresso foi um tantóquanto nojento, bolas...
    E gente gira? E danças giras? E velas giras? E essas coisas giras?

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    1. Muitos pretos giros.
      Não gosto do merengue nem dessas danças parvas. Provocam-me traumatismos nas mamas.
      Velas?
      O rum é giro. A lagosta também.

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    2. És um caso perdido.
      Encontramo-nos no inferno. O R. já disse que providenciava o cozido e umas caracoletas e o Lightman arranja bebida para todos os gostos. Pronto.

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    3. Oh diabo! Quando é que isso foi combinado? Tu não te esqueças que estive ausente!

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  4. Kinteressa quando? Vais à mesma e pronto, ora! É no alqueva.

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    1. Oh... já sabes que eu sou uma fácil, né?

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    2. O teu passado não interessa. Mas sim o presente e o futuro!

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    3. Levo. Levo tudo o que mandarem.

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  5. Amiga snail, ainda bem que voltaste. Nem sei como aguentei uma semana sem ler as tuas reflexões :)!!
    Voltaste inspirada e folgo em saber que descobriste uma nova vocação!!
    Punta Cana??

    bjs,
    Cat

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    1. LOL... qdo uma Tuga vais para as Caraíbas e volta a falar de rum, merengue e negões jeitosos, é mto provável que tenha estado em Punta Cana ;)

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    2. Damn!... Fui demasiado óbvia, tens razão. ;)

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  6. Ok nunca pensei rir-me tanto com cagalhões e vómitos e coisas do género. Muito bom :)

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    1. Rir da desgraça dos outros é feio. Também devias purificar a tua alma. Ide pro Caribe, filha. Ide!

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    2. Isto para purificar a minha alma nem todos os purificadores do mundo chegavam... e sou tão feliz assim que nem vale a pena ;)

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  7. Requinte é classe.
    Achei divertido. Mas mulher minha não caga.

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    1. Devias levá-la ao médico. A obstipação pode ser um problema grave.

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  8. depois disto só me ocorre dizer: aleluia irmã!

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