Se há coisa bonita numa amizade, é quando duas pessoas com estilos de vida e ideais diferentes atingem a harmonia do consenso. Estava hoje em conversa de hora de almoço com uma colega, estava ela a falar sobre unhas encravadas e joanetes, estava eu já a pensar na minha vida de tão enfadonha que era a lenga-lenga dela, até que de repente pensei em voz alta sem querer: 'Vou deixar o preto'. Ela inclinou a cabeça para o lado, pôs a mão no meu ombro e disse com voz doce: 'Fofinha, deves estar senil... mas tu já deixaste o preto há 3 meses...' E foi assim que acabou o meu almoço, comigo a levantar-me da mesa a deitar fogo pelos olhos, a querer explicar-lhe pela milésima vez que eu bem sei quando deixei o preto porque, por acaso, não vejo nenhuma pila desde então, mas que por mais que ela pense que eu passo a vida a pensar em pilas, quer pine quer não pine, às vezes também penso noutras coisas importantes, questões pertinente e, diria até, vitais na vida de uma mulher, mas foi só esta parte que consegui dizer: 'O cabelo, sua mula! Vou deixar de pintar o cabelo de preto! E são 4! Quatro! QUA-TRO-ME-SES!!!!'. Vi os olhos da minha colega perderem a vida por segundos, até que ela voltou a respirar e perguntou-me quase sem voz: 'Mas estás há quatro meses sem pinar, é isso? Logo tu?'. Triste, mas é verdade. A conversa continuou em forma de interrogatório. A pobre coitada, gorda e desmazelada, casada mas mal amada, via o seu ídolo reconhecer humildemente a época de crise que atravessa. Pergunta após pergunta quis saber os porquês, onde está o preto, os gajos das forças armadas, o da gaita, os outros que já nem se lembrava, porque não havia novos, porque não reaproveitava algum dos antigos, porque é que era sempre tão bruta quando me fartava deles, se fosse mais meiga ou menos fria, eles não se sentiriam usados e não se afastavam definitivamente. Estava incrédula com o que ouvia, tentei explicar-lhe que as coisas não são assim, que as pessoas podem ser usadas e que eu sou fria quando quero e que ao contrário do que ela pensa, nem todas as pessoas se afastam quando eu sou bruta com elas. 'Isso quer dizer que há alguém em mira?', perguntou curiosa. Contei-lhe então a história das últimas semanas. Um amigo de um amigo meu tem andado a mandar-me mensagens. 'Ai que bom!', exclamou entusiasmada. Não é bom, expliquei-lhe, é um gordo, careca, com pêlos nas orelhas, acne aos 30 anos e dedos pequeninos. 'Credo! Deus anda mesmo zangado contigo, mulher!', brincou. Contei-lhe que ao terceiro dia depois de me ter conhecido ligou-me a perguntar quando é que eu o convidava para ver um filme em minha casa e se eu lhe fazia umas massagens. 'Diz-me que foste bruta e que o despachaste como só tu sabes fazer, Snail!' Disse-lhe que tentei, mas que não resultou e que ele continua a mandar-me mensagens todos os dias. A sorte é que não sabe onde moro. 'Querida, por muito que a tua rata chore, com esse não, está bem? Quem sobrevive quatro meses, sobrevive cinco ou seis. Mas o que é que tu lhe disseste em relação a isso do convite? O homem não percebe que não é não?'. Baixei os olhos e apenas disse 'Pois... pelos vistos, não...'.
'Massagens?? Eu massajo-te é o caralho!!'
'Massagens?? Eu massajo-te é o caralho!!'
