Lembram-se de quando eram miúdos e gostavam de se gabar de coisas parvas? Como os arranhões nos joelhos ou a cicatriz da apendicectomia? (Termos técnicos! Esta mulher dá cartas, man!!! Sexy!!!) Claro que se lembram... ainda fazemos isso, não é? E isto não pára, aviso-vos já! Eu bem vejo os velhinhos todos os dias na sala de espera do serviço a competir sobre quem tem a doença mais grave ou quem toma mais comprimidos. Mas antes dessa fase competitiva deprimente, vem uma outra, também ela, carregada de ânsia pelo título de palerma do bairro. E, embora vos espante, não vou falar do jovem adulto que se gaba das foeiradas dadas ao desbarato. Vou falar da competição pela melhor figura triste realizada sob o efeito do álcool. Tenho o amigo que se gaba de não ter encontrado as chaves de casa depois de uma noite de copos, de ter adormecido na rua à porta do prédio e de ter acordado em conchinha com um cão vadio debaixo do carro do vizinho. Tenho a amiga que dançou eufórica na rua e com gritos histéricos a dizer que estava numa rave de estrunfes, quando na realidade estava no meio do corpo de intervenção da PSP. Tenho a minha avó que se penteou com Raid casa e plantas porque achou que tinha agarrado na lata da laca. Bem, a minha avó não estava bêbeda, mas é velha e senil, o que vai dar ao mesmo. E tenho-me a mim, que um dia cheguei a casa de madrugada e lavei os dentes com Halibut. E aqui estávamos todos, quase empatados, até chegar este fim de semana. O grupo saiu todo junto, copos e cenas, picámos o ponto em todas as tascas, acabámos numa disco duvidosa e pouco iluminada, há uma amiga que se encantou por um preto e lá esteve durante horas a trocar amassos à bruta. Até aqui tudo bem, se o preto fosse feio ela até se podia defender com o ambiente escuro e a consequente limitação da acuidade visual. Mas bonito, bonito, foi vê-la a beijar outro indivíduo da mesma tonalidade, que ficou incrédulo com a troca repentina e mais incrédulo ainda quando ela lhe disse 'Xiii pá! Desculpa aí! Enganei-me no preto....'. Uma salva de palmas para esta mulher que é a minha nova heroína!
segunda-feira, 29 de abril de 2013
domingo, 28 de abril de 2013
Santa inocência
Estava aqui eu a ver a vida dos outros para me entreter antes da sesta. Encanta-me esta gente que vai passear e tirar fotos para mostrar net fora. Agora andam todos a ver o sapato gigante da Joana Vasconcelos ou as estátuas gigantes do jardim do Berardo. Freud ia gostar de estudar este fenómeno, mas já morreu, 'tadinho. Outra pessoa que devia ser estudada é a minha mãe. Eu também devia ser estuda, porque pessoas com dois dedos de testa não misturam mãe e amigos na mesma rede social. E então lá me aparece a Maria a moer-me os cornos no chat: 'Oh filha, com este sol e tu em casa?'. Respondo com respeito, porque mãe é mãe: 'Não comeces...'. Ela insiste: 'Os teus amigos todos a passearem e a mostrarem fotos aqui e tu aí fechada...'. Continuei a responder com carinho: 'Oh merda! Eras mais feliz se eu andasse aqui a pôr fotos minhas ao lado de esculturas gigantes?'. De imediato lembrei-me de coisas boas e sorri, mas não sei porquê, mãe ficou chateada: 'Era pois! Para as minhas amigas também verem o que a minha filha faz aos fins de semana!'. A ignorância é uma bênção e ela ainda não se apercebeu disso.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Um post cheio de cultura
Há dias vi o meu sobrinho a tomar banho. Não, não tenho nenhum tipo de patologia mental a roçar a pedofilia, mas disseram-me que as tias devem assistir a este tipo de evento e fingir que estão a achar muita graça. Ele tem daqueles livros impermeáveis com bonecos para brincar na água. Isso já achei bonito, introduzir-lhes a cultura literária logo desde pequenos. Eu tinha 13 anos quando a minha mãe me pôs a ler "Os filhos da droga". Hoje percebo o objectivo dela: chocar-me com aquele mundo logo desde cedo, para que eu nunca fosse por esse caminho. Mas lembro-me que, na altura, a parte da droga passou-me ao lado e o que me chocou foi a parte da prostituição e imaginar a miúda a meter pilas na boca para pagar o vício. É engraçado como as boas intenções da minha mãe saíram todas ao lado. A verdade, é que se ela me tivesse posto a ler livros sobre hospitais, tinha feito melhor figura e eu hoje podia ser uma esteticista de sucesso e não ter que trabalhar aos domingos e feriados. Ontem foi um desses feriados. Com sol e calor, só para agravar o meu sofrimento. E, claro está, quem se lembra de ficar doente neste cenário, também não deve muito à sanidade mental. Como o casal idoso que tive o gosto de conhecer pelas 18 horas. Vinham eles das celebrações do dia da Liberdade. Vinha ela com uma ferida aberta na cabeça. Vinha ele nervoso porque o Benfica estava quase a começar. "A minha mulher parte coisas. Fica nervosa e depois parte coisas. É muito doente dos nervos, ela. Eu não sou assim, eu só fico nervoso se partir coisas de valor. Ela fica nervosa e parte tudo. Eu só parto porque ela é nervosa e eu fico nervoso". Eu não consigo precisar exactamente quanto tempo ele esteve nisto, até porque estava calor lá fora e eu estava ali contrariada, mas creio que ele lhe partiu a cabeça. Acredito, no entanto, que há ali um amor daqueles a sério, verdadeiro e à antiga. Ainda assim, eu não sou uma pessoa sensível para descodificar e entender as relações amorosas. Juro que tento, mas não tenho o dom. Se calhar, porque a minha mãe nunca me deu um romance para ler. Os poucos que tentei ler, foram durante a escola secundária e acho que nunca acabei nenhum. Todas aquelas histórias davam-me suores, diarreia e pesadelos. Ainda hoje tenho vontade de fazer xixi nas calças quando penso no Eça de Queiroz. Acho que este trauma explica muita coisa na minha vida. Mas, continuando, disse então ao velhote que tudo ia correr bem, que mais um bocadinho iam para casa, e para ele se acalmar porque estava visto que mais dia menos dia, já não ia haver mais nada para partir lá em casa... A velha lamentou chorosa o fatídico destino do serviço Vista Alegre, mas eu estava mesmo a falar deles os dois. Acho que o velho percebeu o que me ia no pensamento, fez um ar desconfiado e perguntou se eu era funcionária do hospital. Eu disse que não, que só ando de bata branca porque gostava que fosse Carnaval o ano inteiro. A minha colega, que ajudava a velha a levantar-se, olhou para mim em estado de choque. A velha também. Ele riu-se, abraçou-me e disse até amanhã. Saíram. A porta fechou-se. Fez-se um silêncio estranho. Ouvi a minha colega dizer que é encantadora a minha facilidade de comunicar com doentes psiquiátricos. Digo eu que é assustadora a afinidade que eles têm comigo. Vou deixar de ler Boris Vian e passar a ler Danielle Steel. No banho. Parece-me uma boa iniciação.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Hoje vou mudar de estratégia e inundar isto com pequenas pérolas #2
O mesmo homem já me mandou estas quatro mensagens hoje. Tenho medo da 5ª.
1ª, 11h: Estás acordada, coisa boa?
2ª, 11h15: Estou no forum a escolher lingerie com a minha mãe.
3ª, 11h16: O que fazes sábado à noite?
4ª, 14h55: Estou a comer morangos.
Hoje vou mudar de estratégia e inundar isto com pequenas pérolas #1
A louca odisseia dos bagos de arroz que se perderam na imensidão de um decote.
A arte do povo africano de deitar por terra uma crise de melo-dramatismo caucasiano com relatos emocionados de relações mal sucedidas desde o inicio da clausura no bunker das pessoas amarguradas
"Esse não conta! Ele foi o homem que te penetrou mas não te tocou."
terça-feira, 23 de abril de 2013
Tendências
Há dias fui ver os meus pais. Às vezes faço isso, não vão eles esquecer-se da minha cara. E até me visto melhor quando lá vou. Faz-se sentir uma pessoa importante, com pouco valor, mas importante. Quase como se fosse embaixadora da boa vontade para uma organização não governamental com fins lucrativos. Uma Catarina Furtado de metro e meio e caracóis, mas com a capacidade de articular frases completas. Vou lá, faço-lhes festinhas na cabeça, eles ficam contentes e eu garanto a herança. Às vezes até me sento com eles e digo-lhes que sim, várias vezes, sempre a sorrir, enquanto eles falam das suas aventuras no campo. Sou um amor. Desta última vez, a minha mãe foi buscar um álbum antigo de fotografias, com fotos de férias de campismo de há 30 anos atrás. Houve uma foto que me fez rir. Eu, com dois anos, a fugir com um melão inteiro nas mãos. Sem a minha mãe dar por isso, roubei a foto. O mundo precisa de provas que eu não me tornei no que sou pelas rasteiras da vida, que as pessoas nascem já destinadas e que há coisas que devemos aceitar, porque são assim mesmo. E eu sou assim. Apesar de achar que estava a agir mal, trouxe-a para casa. Eu tenho a prova. Eu sempre gostei de brincar com a fruta. Mas só com fruta grande.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Sestas e sonhos
A minha mãe estava a ver televisão no sofá. Ao seu lado estava um jovem, que nunca vi na vida, em tronco nu. Sentei-me com eles. O gajo começou a apalpar-me as mamas e a beijar-me. Demos a melhor curte que me lembro de ter dado nos últimos cinco anos. Talvez porque as curtes dos últimos cinco anos aconteceram comigo bêbeda. A minha mãe continuava a ver televisão. Adormecemos os três. O meu pai aparece, não gosta do que vê e começa a ralhar. Eu finjo que continuo a dormir. O jovem acorda e foge para a casa de banho. A minha mãe acorda e tenta justificar-se. O meu pai chateia-se e sai de casa. Abro os olhos e a minha mãe começa a alertar-me para a índole do jovem, que ele já andou metido em putas e droga e que não é boa pessoa. Eu respondo-lhe que ela é uma exagerada, que fala como se ele tivesse matado alguém e que toda a gente erra na vida. Digo que não me lembro de onde, mas que a cara dele não me é estranha. Ela ri-se e diz que ele é o agudo da São. Pergunto o que é um agudo. Ela diz que é o ex-marido da enteada. Pergunto quem é a São. Ela diz que é a sobrinha da Marta. Digo que não sei quem é a Marta. Ela diz que eu só me lembro de quem me interessa. Percebemos que o gajo está a ouvir a conversa por trás da porta, chamo-o, ele aparece cheio de eléctrodos no peito e ligado a um monitor, como nos hospitais, e muito nervoso, a dizer que me ia contar tudo da vida dele antes de nos casarmos. Pergunto se é suposto pensar em casamento com alguém com quem dei só uma curte. Ele e a minha mãe respondem que sim. Ele diz que tem pressa e pede-me o número de telefone para agendarmos a foda e oficializar o noivado. A minha mãe não diz nada. Um anúncio da televisão diz que há uma fábrica de salsichas em Vila do Bispo. A minha mãe diz que agora todas as salsichas do país são feitas em Vila do Bispo enquanto sinto alguém a encostar-se ao meu rabo. Olho para trás para ralhar com a minha mãe e dizer-lhe que não precisa encostar-se a mim para me dizer isso, mas quem se estava a encostar era o gajo e a minha mãe estava do outro lado da sala. Ao se aperceberem da minha confusão, gajo e mãe riem-se muito.
E pronto. Pessoas que percebem dessa ciência da interpretação de sonhos, expliquem-me porque é que a minha cabeça mostra-me a minha pessoa a curtir com gajos despidos à frente da minha mãe, fala-me de graus parentescos e pessoas que não existem e terras onde nunca fui, só para me dizer que ando a trabalhar demais? Da falta de sexo já nem é preciso falarmos. Isso devia ser considerado um direito básico de qualquer cidadão!
quinta-feira, 18 de abril de 2013
No consultório
Olhe Doutor, eu não ando bem. E escusa já de fazer aquela cara que os homens fazem quando uma mulher diz que não anda bem, tipo enjoo repentino, enquanto pensa 'Olha, mais uma que não sabe porquê, mas que não anda bem...', porque eu não ando mesmo bem. Só não consigo perceber é o porquê! Isto é assim, imagine lá o disparate, como se uma pessoa deixasse de achar piada ao sexo. Eu sempre gostei da adrenalina de fazer coisas em locais menos próprios. Sexo também e continuo a gostar muito, graças a Deus, mas as cagadas fora de casa já não são a mesma coisa. Um centro comercial, um festival de verão... o ritual de me proteger de bichos alheios, de não fazer barulho, de não deixar marcas visíveis... de o fazer o mais rápido possível, de não deixar pessoas à espera nem que percebam o que estive a fazer ali fechada... a gota de suor a escorrer na testa, o vestir-me aliviada... Isso mexia comigo. Agora já não. Hoje foi no ginásio. Mulheres a tomarem banho, outras a equiparem-se e eu pumba, toma lá uma bomba que é de graça... mas foi assim... não foi cagar, foi mesmo só deixá-lo cair... sem fogo. Era quase como se estivesse em casa. Sem magia e sem pecado. Uma cagada como outra qualquer. Acho que é como aquele mito dos suecos serem tão felizes, terem tudo, ao ponto de a vida já não ter graça e de parecer que não há nada que os estimule a continuar e depois desatarem todos a suicidarem-se no outono, sabe? É este vazio que me consome. Acho que isto começou desde que me chateei com o meu chefe, roubei-lhe as chaves do seu WC privado e fui lá à socapa arrear uma poia tão grande que dava para garantir os postos de trabalho de uma ETAR inteira durante seis meses. Fazê-lo à pressa, limpar vestígios físicos, sair orgulhosa com a câmara de gás que deixei lá dentro. Foi tão bom. E a cara dele, quando lá foi minutos depois, a sair meio amarelo meio verde, sem perceber se seriam os esgotos que estavam entupidos ou se era ele que estava a morrer por dentro...Até fico comovida só de pensar nisso. Coisas destas só se fazem uma vez na vida, é isso? Sinto que não há mais nada épico que eu possa fazer com a minha merda, percebe? Ando triste.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Genealogia
Acho curiosas aquelas pessoas que conseguem identificar feições em crianças com menos de um ano. Ainda têm cara de joelho e já essas pessoas conseguem dizer que têm os olhos do pai, as orelhas do avô, ou o sorriso da mãe. Essa do sorriso da mãe, então é a minha favorita. Aconteceu-me há dias, uma ex-colega de curso que apareceu de surpresa, mãe há cinco meses, e que decidiu mostrar fotos do seu menino, ora a tomar banho, ora a mudar a fralda (doentes mentais do caraças!). Todas elas embevecidas e uma lá decide atirar 'Ah... tem o teu sorriso, Patrícia...'. E todas as outras 'Aaaaahhhhh.... pois tem!'. Ora isto já é levar a minha capacidade de auto-controlo ao limite. Eu, que estava a tentar controlar-me, com duas respostas geniais a palpitarem-me nas têmporas, tentando apenas ofender as mulas e não a desgraçada da mãe, que neste momento ainda parece uma vaca a sufocar nas próprias mamas, deixei de parte a pergunta se a mini-pila do puto era parecida com a do pai, não fosse alguma das outras responder que não (ou que sim) e a pobre Patrícia ir para casa a pensar que o marido anda a molhar o bico naquelas bandas e quando dei por mim já um lindo 'Este sorriso de 5 meses é da mãe? Patrícia, tira a prótese dentária já, sua fraude!' saía da minha boca sem eu querer e cinco olhares de desaprovação caíam sobre mim. Salvou-me a avó da criança, que começou a dizer que o pirralho era a cara chapada dela própria, mostrando uma foto a preto e branco, dela em bebé, tirada numa praia fluvial em 1950. Fui obrigada a concordar, a cara de joelho é de facto uma constante, no bebé, na avó em bebé e na avó em velha. Prevejo um futuro muito negro para este miúdo.
Já comigo, sempre disseram que eu puxava ao lado do meu pai. Nunca fui capaz de refutar isto, pois o buço que eu exibia aos 15 anos tinha muitas parecenças com o rato albino morto que o meu pai ostenta entre o nariz e o lábio superior. Avós desse lado, só conheci a minha avó paterna, mas não me lembro de ela também ter tido bigode. Pode ser herança deixada pelo meu avô, mas dele pouco sei, nem nunca vi uma foto. É quase como se fosse a personagem 'tabu' na história da família. Só sei que era um bêbado de vocação e morreu com uma cirrose hepática. Prevejo um futuro muito negro para mim.
E este post podia, também ele, morrer aqui, não fosse hoje ter estado um calor de merda e eu ter corrido o dia todo como uma gazela, porque consegui atrasar-me para todo o lado onde tinha de ir. Acabei de chegar a casa e constatei que podia facilmente criar elefantes e leões no conforto das minhas axilas, tal não é o cheiro a circo que nelas se criou ao longo do dia. A conclusão é mais que óbvia. O meu avô ou era preto ou era monhé. Ou talvez fosse cigano. Vou tomar banho.
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