Devo dizer que ando aborrecida com isto. Encarava este espaço como uma relação que se vai construindo em bases cada vez mais sólidas de partilha e compreensão, de amizade e cumplicidade, de dádiva e crescimento pessoal. Aos poucos, tenho aberto a minha alma, mostrando-vos por palavras o melhor de mim. Ora a minha beleza física, ora as minhas inigualáveis qualidades beneméritas, ora a minha aura de divindade. Pois digo-vos que é com grande tristeza que constato que, como recompensa, tenho recebido comentários que variam entre o jocoso, o sarcástico e a má-língua barata e de gosto duvidoso. Ainda assim, e por ser uma alma casta que não conhece o mal, continuo a partilhar convosco estes raios de luz do meu ser. E hoje não será excepção. Hoje vou falar dos alguns dos pilares mais importantes da minha educação.
Começo com a minha educação católica. Catequese, Bíblia, hóstias, santinhos, terços, procissões, missas e escuteiros. Papei tudo. Sim, já papei escuteiros. Certamente, as almas obscuras já preparam o comentariozinho de mau gosto a perguntar se é por isso que gosto tanto de me ajoelhar para rezar. Poupo-vos o trabalho. Com uma vida tão fortemente marcada pelas tradições religiosas, mas também vincada pela prática regular de exercício físico, mais não se podia esperar de mim a não ser eu ser uma pessoa com a capacidade de se penitenciar fluentemente e sem perder o fôlego em qualquer posição. Em contradição a tudo isto, também fui dotada com uma capacidade ímpar para o estudo das ciências. Matemática, química, biologia ou ciências médicas. As reacções, as atracções dos corpos, cargas e massas, fluídos e calor. Ah, esse fascinante mundo que nos rodeia.
Claro que tudo isto não é conversa em vão. Como já sabem, tudo acaba por se resumir numa qualquer história que me aconteceu hoje. E hoje tive uma epifania. Hoje presenciei a aparição de uma entidade enviada por Deus Nosso Senhor. Dizia-me ela, o suposto anjo, uma senhora com meia tonelada de massa corporal e cara de morsa, que fuma três a quatro maços de tabaco por dia. Como profissional de saúde, porém ciente da minha missão de espalhar a Boa Nova na terra, disse-lhe que isso era o caminho do mal que termina numa espécie de inferno terreno, com o nome de enfarte agudo do miocárdio. Disse-me ela que não bebe, não joga, não rouba e não fode há mais de dez anos e que, por isso, só lhe resta o poder fumar. Pensei eu, 'com uma fronha dessas não deves ter fodido é nunca'. E de imediato percebi, eu não estava perante um anjo, eu estava perante a Virgem Ana Maria. A Virgem Ana Maria continuou a sua mensagem divina e disse-me que começou só com uns cigarrinhos por semana, mas ao longo dos anos, sozinha, sem homem, sem outros vícios, acabou onde está agora, a fumar oitenta cigarros por dia. A abstinência de pilas levou-a ao excesso de tabaco. Lembrei-me das aulas de química do 10º ano e das reacções reversíveis. Amanhã vou deixar de fumar. Glória a vós, Senhor.