quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Do oculto

Sheila é a mulher dos sete ofícios. Cabeleireira, manicure, pedicure e estetiscista. Sendo brasileira, mamalhuda e sempre de mini-saia mesmo chovam sapos, suponho que os outros três ofícios sejam de cariz sexual. Mas, do meu ponto de vista, Sheila é a mulher do mistério. Sheila fala uma língua que eu não entendo. Anos e anos de telenovelas brasileiras e tudo o que aquela mulher diz parece que vem numa linguagem codificada que eu não consigo interpretar. Não consigo. Ou então ela anda sempre mocada. 
Um dia destes disse-me que Deus devia ter criado todas as mulheres com unhas vermelhas e blush na cara. Dia esse, em que vim para casa a perguntar-me se ela estaria farta do seu part-time no salão de cabeleireira, se estava com vontade de se dedicar em exclusivo à actividade das danças exóticas ou se afinal vai à missa todos os domingos mas trabalha como maquilhadora num bordel e o conflito interior que isso provoca começa a ser insuportável. Intriga-me, a Sheila. 
Também já me disse que está farta disto tudo em Portugal, que gostava de ir para Moçambique, casar-se com um preto e ter um filho castanho. Fiquei a pensar se o 'tudo' seriam todas as pilas do bairro incluindo as dos ciganos, se acha que já está na altura de fazer um upgrade pilométrico na sua vida ou se simplesmente gosta muito de chocolate. Perturba-me, a Sheila. 
Hoje, enquanto me arranjava o cabelo, perguntei-lhe se estava tudo bem. Ela disse que precisava de algo novo na vida, de um novo estímulo, de algo por descobrir. Respondi um "sim" apenas e decidi não perguntar ao que se referia, porque, de qualquer maneira, não ia perceber. Disse apenas "sim" e sorri. Ela sorriu também. Devolveu a pergunta, se estava tudo bem comigo. Respondi que está tudo bem, tirando uma pequena dor na anda esquerda que me anda a incomodar há uns dias. Sheila respirou fundo e apenas disse, num tom sereno "Ah minina, isso devi sê uma tendjinitji na virilha, sábi?... Temos qui fazê uins exércícios dji fortalecimento nessa zona, viu?". Hum... Sheila conhece um fisioterapeuta? Sheila gostava de ser fisioterapeuta? Sheila já sabe que sexo na minha vida nos últimos tempos népias e acha que isto são as virilhas e arredores a atrofiar? Sheila virou fufa e quer ajudar-me a fortalecer as imediações das minhas virilhas? Quando Sheila diz 'temos', está a referir-se exactamente a quantas pessoas? Tenho medo da Sheila.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

É bom que estejas a morrer, senão mato-te

Era uma vez uma menina muito linda, de longos cabelos pretos e com um sorriso contagiante. Certa noite de copos, um jovem marinheiro amigo de amigos da menina, acabou a noite a trocar copos de cerveja, conversa animada e risos inocentes com ela. Ditou o destino que os dois dividissem um taxi nessa noite, já que se dirigiam os dois para a mesma zona da cidade. A certa altura ela disse ao taxista para parar no próximo cruzamento, que era aí que vai ficar, ao que o marinheiro respondeu que gostava de ficar mais um pouco e continuar a conversa. Receosa de não controlar a sua libido patologicamente agressiva, a menina diz a medo que tem mesmo que ir dormir e sai a correr do taxi, com este ainda em andamento. As bebedeiras têm destas coisas, não se percebe se é o carro que ainda está a andar ou se é a rua que anda à roda, mas a memória da última vez que as vizinhas a apanharam a lambuzar-se com um jovem advogado à porta de casa ainda é recente e isso não é coisa que a bebedeira atenue. Não tendo trocado contactos com o marinheiro, este, intrigado com essa morena que gosta de dar mergulhos no asfalto, procurou através dos amigos comuns e conseguiu voltar a entrar em contacto com a sua princesa Diana Ross versão cara pálida. E durante as semanas seguintes houve mensagens, telefonemas, conversas pela noite dentro e um convite para um copo e quiçá mais copos ou outras cenas. Ela, não admitindo, estava entusiasmada, escolheu a roupa, o perfume, as botas, o casaco e as jóias. Dispôs tudo em cima da cama para avaliar a combinação. E ia tomar um refrescante banho, quando... "Adormeci no sofá... Levas a mal se me cortar hoje?". 
Tampa. 
A menina acabou de levar uma tampa.

Se levo a mal? Não... Desde que estejas a mentir em relação ao suposto cansaço após um dia de trabalho e na verdade tenhas sido atacado por uma matilha de cães vadios, que te arrancaram uma perna e agora estejas na urgência de um hospital qualquer, com uma algália enfiada na pila sem anestesia, enquanto os funcionários de um matadouro da margem sul vêm a caminho de Lisboa para abater os cães, dissecarem os seus estômagos, encontrarem os pedaços da tua perna e depois fazerem a reconstrução do membro tipo puzzle com super cola três, eu não levo nada a mal... Disse perna? Ah, enganei-me. Tomates. Queria dizer tomates.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Serei eu a única pessoa... #5

... a quem o anúncio publicitário onde o senhor diz 'mini-raquelete' 68 vezes desperta instintos homicidas?

Vá, só me dá vontade de aviar uma galheta na pessoa que estiver mais perto. Que por sorte é a preta. Se lhe fizer um olho negro, quase ninguém vai dar por nada, né?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Recado à burguesia

É, sou uma labrega da terrinha que gosta de salada de orelha de porco. É, já comi túbaros. É, e gostei, vê tu bem! É, túbaros são gónadas de animais. É porque o caviar não, queres ver? É, gosto de pescoços e de patinhas de galinha. É, gosto de comer partes nojentas de animais. É porque as ostras nhanhosas que comes vivas, que mais parecem um bocado de meita com guelras, são mais limpinhas que as minhas patas de galinha lavadinhas e com as unhas cortadas, queres ver? O quê? As patas das galinhas andam na merda? É porque nos cus onde andaram as pilas que metes na boca nascem sabonetes, queres ver? Parvalhona.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Saudades do Verão

Daquelas noites quentes em que sais e bebes e danças e bebes e cais no chão e bebes mais e chegas a casa com os pés todos cagados e pisados e com queimaduras de cigarros e com o verniz das unhas todo lascado e enquanto decides se lavas os pés antes de ir para cama ou se resolves isso quando acordares ainda tentas perceber se foste violada ou se passaste a pé por um curral de porcos a caminho de casa... Ah... saudades do verão...


... porque os pés lavam-se e as unhas voltam a ficar bonitas... As botas de camurça bege, não.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Injustiça!

Mulher solteira toma banho, gasta perfume, escolhe cuidadosamente a roupa, arranja o cabelo e maquilha-se antes de sair de casa. Nunca se sabe quando pode aparecer um homem de sonho. Se as casadas também o fazem é porque são umas porcas. Não têm nada que interferir neste processo de caça. 
Portanto, ontem fui fazer noite, não sem antes ter tido todos os cuidados com a apresentação. Porquê? Não faço ideia. Primeiro, porque chego lá e visto uma bata por cima disto tudo. Depois, porque acontecem fenómenos químicos naquele sítio. Começou com a senhora da patareca mal lavada, depois foi o velhinho da fralda cagada, depois foi o monhé vomitado e depois foi o bêbado que queria que lhe pusessem os dedos no sítio porque tinha 'andado à porrada na tasca' e respingava sangue por todo o lado. E em menos de uma hora, todos estes entraram, saíram e deixaram na minha sala cheiros intensos e fluídos orgânicos. E claro, só depois do quadro do caos se compor, é que apareceu o polícia sexy com algemas e um cacetete comprido. Claro que, quando ele entrou, eu estava sozinha rodeada de cheiro a cona velha mijada, merda, caril azedo e vomitado e rodeada por nódoas no chão num degradé entre o vermelho-sangue, o amarelo-diarreia e o verde-bilis. Claro que eu o cumprimentei com um "boa noite senhor agente'" meloso e ele respondeu com um "b'noite" seco e a controlar o impulso do vómito. 
Hoje fui à loja do cidadão tratar do passaporte. Pensava eu que ia passar mais uma tarde a gozar com pessoas feias e mal vestidas. Ainda assim, antes de sair de casa, tive todos os cuidados com a apresentação. Porquê? Não faço ideia. Já não bastava as olheiras mal disfarçadas por ter trabalhado durante a noite, como ainda fiquei com mau humor e com vontade de enfiar todas as crianças de colo e as putas das senhas de prioridade dentro um saco e atirá-lo ao rio. Também ponderei enfiar dentro do saco a avó que dizia ao netinho que não tinha mais de cinco anos "tens que sorrir para a foto amorzinho, senão ficas com cara de assassino e violador". De início, não percebi muito bem de que planeta ela vinha, mas depois apareceu o pai da criança, que olhava para todas as mulheres como se elas estivessem sem roupa e percebi os receios da pobre senhora. Apesar dos contratempos e de todas estas aflições, ainda tive tempo de retocar a maquilhagem e compor o cabelo. Entretanto, as minhas aflições acalmaram quando chegou a minha vez de ser atendida. Claro que, no meio disto tudo, apareceu um homem lindo, morenão e com barba por fazer, no momento em que eu tirava a foto com essa regra estúpida das orelhas de fora. Tentem imaginar que têm 50 Kg de cabelo preto encaracolado e terem que o prender por trás das orelhas de modo a que estas fiquem visíveis. Claro que me distraí quando o Deus da loja do cidadão passava. Claro que a máquina da foto disparou nessa altura. Claro que a senhora gritou do outro lado do balcão "Eu disse para não se mexer nem rir". Claro que isso chamou a atenção do homem lindo. Claro que ele olhou na minha direcção a tempo de ver a minha foto no monitor com cara de predadora sexual, sorriso de tarada e orelhas de abano a olhar para a sua direcção. Claro que nada disto está certo!

Só para avisar que vem aí história macabra da boa

Fiz turno de noite e agora vou um bocadinho até à loja do cidadão. A reportagem completa, hoje, à hora do jornal da noite.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Mundos desconhecidos

Hoje, uma mulher minha conhecida decidiu conversar comigo sobre a sua vida íntima, sexo sem fins reprodutivos, sem o recurso a métodos contraceptivos e quais as estratégias que está a pôr em prática. Ela é testemunha de Jeová. O marido também. Tive a sensação que estava a ouvir uma dissertação sobre os hábitos sexuais de uma nova espécie endémica de pinguins da Gronelândia. O quê? Não há pinguins na Gronelândia? Pois.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Cuidado, mulheres!

A Alta Autoridade para a Segurança das Pachachas Sem Macho Residente (AASPSMR) decretou esta tarde o alerta vermelho, o máximo numa escala de quatro (verde, amarelo, laranja e vermelho), para a presença de um predador de grande porte que anda a monte pela capital lusa. Trata-se de um indivíduo de origem angolana, 23 anos, com uma cirurgia cardíaca recente, pele chocolate de leite e com um apetite sexual voraz, com vítimas-alvo do sexo feminino, entre os 30 e os 35 anos, de baixa estatura e elevado perímetro peitoral. Foi visto pela última vez esta tarde, em tronco nu e exibindo uns bicípites bem torneados, tendo a vítima escapado ilesa ao ataque. Reproduzimos aqui o ataque, para prevenir outras mulheres incautas:

- Trabalhas aqui há pouco tempo, né?
- Já há uns aninhos...
- Então começaste novinha. É giro, o teu trabalho, yah! Gostas?
- Do meu trabalho? Sim, claro.
- És casada?
- Não. (vítima cora sem motivo)
- Mas tens alguém na tua vida, né?
- Eeeerrrr.... (vítima cora ainda mais e não consegue responder)
- Tou a ver que não.
- Eeeerrrr... (vítima continua corada e teme estar a ter um AVC)
- Vais tendo, né? Yah, tou a ver.
- Eeeerrrr... (vítima acha que foi drogada ao almoço)
- Onde costumas sair à noite? Vais ao Docks?
- Eeeerrrr... (vítima pensa "Docks??!!! Ninguém vai ao Docks, caralho!!!" mas continua a vocalizar como se fosse um surdo-mudo com Alzheimer)
- Vá, isso é informação a mais, eu sei yah. Mas dá-me o teu mail para eu te adicionar no facebook e combinarmos uma saída aí.
- Eeeeerrr.... (vítima cora, transpira e pede para aparecer uma bala perdida a voar em direcção à sua testa)
- Não queres dar, mas eu vou saber. Já fiz este exame antes, o teu nome vem no relatório, é só procurar-te. Para além de que já sei onde trabalhas, se te quiser ver ao vivo outra vez, yah.
- Eeeerrr.... (vítima levanta-se, sai da sala e pede a outra pessoa para ajudar o individuo a sair)

A vítima recebeu apoio psicológico, no gabinete de apoio à vítima da AASPSMR, após apresentar sinais severos de trauma, com ideações homicidas direccionadas à senhora da perfumaria que lhe vendeu o creme anti-rugas e discurso incoerente com frases dispersas: "pilas pretas gigantes a cuspirem-me em cima", "deve ser alguma coisa no meu cheiro... falta de foda deita cheiro?" e "não sei se ele falava comigo ou com as minhas mamas, mas olhava para elas como se elas lhe respondessem e eu não" (sic).

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Às minha futuras visitas - um internamento na psiquiatria nunca esteve tão perto

Num mundo ideial, uma pessoa à noite dorme e não trabalha. Mas mesmo que trabalhe, acaba-se o turno às 8h da manhã, vai-se ver o saldo bancário como se tinha planeado e vai-se para casa dormir (depois de chorar um bocadinho) em vez de ter de trabalhar até às 16h. Mas mesmo que se trabalhe até às 16h, tem-se mais cinco colegas que podem aliviar a carga de trabalho e ajudar a ter um dia mais calmo. Mas mesmo que duas dessas colegas tenham pedido para chegar mais tarde, uma delas tenha ficado em casa com a filha doente e os outros dois estejam encurralados na IC19 porque um poste eléctrico caiu na estrada, pode-se sempre pedir à chefe para sair mais cedo. Mas mesmo que a chefe seja uma cabra com as letras todas maiúsculas e não deixe ir cedo para casa uma pessoa que esteve a trabalhar uma noite inteira e que leva logo a seguir com o trabalho de 6 pessoas sem ter tempo sequer de ir lavar a cara, fazer um xixi, ir ao multibanco ou sentar-se um bocadinho para recuperar forças, há sempre aquela fé que tudo tem um retorno e as restantes pessoas reconhecem o seu valor e espírito de sacrifício. Mas, na realidade, vive-se o pior dia de trabalho de toda a carreira, ninguém reconhece ou agradece porra nenhuma e a primeira colega que chega para supostamente aliviar o sofrimento, em vez de dizer "Boa miúda! Descansa um bocadinho agora, vá...?", diz "Credo mulher, estás despenteada.". Despenteada? Puta que os pariu a todos.